BYD quebra barreiras e coloca a China no topo dos recordes de velocidade automotiva
Yangwang U9 Track Edition — Foto: Reprodução/X
O mundo do automobilismo presenciou, neste fim de semana, um marco histórico: o Yangwang U9 Xtreme, superesportivo elétrico da chinesa BYD, alcançou a impressionante marca de 496,22 km/h (308,4 mph) no circuito de alta velocidade ATP Papenburg, na Alemanha. Conduzido pelo experiente piloto alemão Marc Basseng, o modelo tornou-se oficialmente o carro de produção mais rápido do planeta, superando rivais que por décadas dominaram esse território, em especial a Bugatti, ícone francês da velocidade.
O feito não é apenas técnico, mas simbólico. Até poucos anos atrás, a supremacia nesse campo pertencia quase exclusivamente às marcas europeias, como a Bugatti e a Koenigsegg, ou a pequenas empresas de nicho como a SSC North America. Em 2019, o Bugatti Chiron Super Sport 300+ havia entrado para a história ao atingir 490,48 km/h, conduzido por Andy Wallace, mantendo a tradição de Molsheim como referência absoluta em performance extrema. Agora, a BYD, cujo nome até recentemente era associado sobretudo a ônibus elétricos e veículos de massa, desloca o eixo da inovação automobilística para o Oriente.
O U9 Xtreme representa uma evolução radical em relação ao Yangwang U9 convencional. A versão especial é equipada com quatro motores elétricos, totalizando cerca de 2.978 cavalos de potência — mais que o dobro da configuração original. Cada unidade motriz é capaz de girar a 30 mil rotações por minuto, alimentada por uma arquitetura de 1.200 volts, inédita em um carro de produção. Esse avanço não só permite maior potência, como também reduz de forma significativa a geração de calor, problema crônico em veículos elétricos de alto desempenho. A BYD afirma que o sistema dissipa até 67% menos calor em comparação com plataformas de 800 V, hoje padrão na indústria.
No coração do modelo está a Blade Battery, tecnologia proprietária da marca. Trata-se de uma bateria de íon de ferro-fosfato (LFP) redesenhada com densidade celular 170% superior e capacidade de descarga até dez vezes maior que a de veículos elétricos convencionais. Esse componente, além de fornecer energia para o recorde, representa também a aposta da BYD em uma solução mais estável e segura que as químicas de níquel-cobalto amplamente utilizadas no Ocidente.
Visualmente, o U9 Xtreme foi adaptado para lidar com forças até então reservadas a protótipos de pista. As rodas de 20 polegadas foram reduzidas em diâmetro para favorecer a aerodinâmica e a estabilidade, enquanto os pneus dianteiros foram alargados para igualar a largura dos traseiros, ambos com 325 mm. Houve ainda ajustes na bitola e reforços estruturais para assegurar que a máquina suportasse a pressão aerodinâmica em velocidades próximas a 500 km/h.
Embora tenha sido celebrado como o carro de produção mais rápido já registrado, há uma ressalva importante: a medição foi feita em apenas uma direção, sem a tradicional média entre ida e volta exigida por organismos como o Guinness para homologação oficial. Esse detalhe, porém, não diminui a relevância histórica do feito, sobretudo pelo impacto simbólico de ver um carro chinês superar marcas consagradas da engenharia europeia.
Historicamente, os recordes de velocidade sempre foram palco de rivalidade e prestígio nacional. Nos anos 1930, a Mercedes-Benz e a Auto Union duelavam nas autobahns alemãs, enquanto os britânicos Malcolm Campbell e John Cobb quebravam barreiras em carros movidos a motores de aeronaves. Décadas depois, nos anos 1990, o McLaren F1 estabeleceu novo patamar ao chegar a 386 km/h sem qualquer turbo ou auxílio elétrico, apenas com o refinamento mecânico de um V12 aspirado da BMW. Em 2005, a Bugatti Veyron redefiniu a era dos hipercarros com 407 km/h, iniciando uma disputa que se estenderia ao Chiron e à Koenigsegg Agera RS.
Agora, em pleno 2025, o quadro se altera novamente. Pela primeira vez, o protagonismo não está em motores a combustão, mas na eletrificação plena. E, ainda mais significativo, não vem de marcas históricas europeias ou americanas, mas de uma fabricante chinesa que, em pouco mais de duas décadas, passou da produção de baterias para dominar o mercado de veículos elétricos.
A produção do Yangwang U9 Xtreme será extremamente restrita: apenas 30 unidades estão previstas, reforçando seu caráter de vitrine tecnológica mais do que de produto comercial em larga escala. No entanto, a mensagem foi clara: a corrida pela velocidade máxima, antes restrita a um punhado de engenheiros ocidentais, agora é global — e a China demonstrou ter condições não apenas de participar, mas de liderar.
